esperança de verdade
Estava eu em uma destas calçadas da vida,
que cruzamos todos os dias,
quando vi uma esperança pousada no chão,
no meio os transeuntes, atrapalhando o tráfego.
Aquele pequeno inseto, verdinho,
há poucos passos de ser esmagado,
não voava, nem andava.
Estava lá, a esperança inerte.
Parecia que esperava o seu fim.
Quando um rapaz parou e a pegou pelas asas
Jogando-a aos céus em um desejo que voasse,
Mas não durou cinco segundos
e lá estava a esperança ao chão.
O rapaz foi embora...
Passou-se mais um pouco e uma senhora,
Muito discreta, achou a esperança.
Para ela, era linda, sinônimo de vida
E também tentou fazê-la voar.
Não uma nem duas, mas três vezes
E nada...
As pessoas ao redor olhavam e incentivavam,
E nisso, veio chegando, bem sorrateiro,
Um leproso, marginalizado com a sua bengala,
Apenas balbuciava, pois sua tuberculose já era avançada.
As pessoas no ímpeto,
se espalharam e se afastaram da esperança
e em uma forte crise de tosse,
o leproso que pedia uma ajuda,
se contorceu e caiu em cima da esperança.
A esperança morreu.
O rapaz e a senhora foram embora.
E com o leproso,
Eu não sei o que aconteceu.
Doce ilusão

Vivemos em uma sociedade transviada
com um trambique institucionalizado
para vender, publicar, propagar
nossa brasilidade enlatada
onde o pobre pula, canta e se espreme
em uma passarela de asfalto
mais parecida com um curral;
e seus senhores - feudais
confinados em ricos cubículos,
assistem, aplaudem e olham por cima
regados a champagnhe e
entorpecendo-se das mais finas químicas
onde acham o maior barato...
e do fundo, vem um grito de libertação
para o pobre, o drogado, o rico, o deputado,....
é carnaval!

Rivotrio

Todo dia desperto com um susto. Em um grito abafado, sufocante, até que se liberta:

- Acorda serotonina!

Meio tonta, zonza, sob o efeito rebote do entorpecente da noite passada.

Abro os olhos...

Pupila, teto, lado, braço, umbigo, joelho, pé, porta, banheiro, esforço de pé...

Passo, mais um passo, outro passo e passo...

Suspiro, respiro, piro...

Pulso, pulso, pulso, pulso, pulso!

Água na boca, no corpo, indo...

Dopamina, dopem, mina, dor.

Cafeína, suspiro, respiro, tomo, melhoro...

Serotonina dormiu, apagou, descansou.

Dopamina não, sempre alerta em busca de uma heroína.

Atenta aos acontecimentos com suas pupilas disformes...

Passa o dia frenética, saltitante com a cafeína,

mas quando a noite cai, elas sentem falta da serotonina

coitada, tão nova, tão cansada, tão medicada e controlada

começa o ensaio para a madrugada longa e acordada e agitada

sob o som clássico de uma orquestra de ansiolíticos,

o maestro não permite que a festa se resuma a 15 gotas musicais

com uma sonoridade inconfundível e entorpecidamente gostosa

e vem o grito de novo:

- acorda serotonina que é hora de você dormir!

Olhares

O morro

Do morro

Para o morro

Morro por olhares

Morro de olhares

Morro

Olho e não morro

Olho

Olhos

Morros

E morro....

Nada na natureza e nem na noite me assusta mais.

Qual o tamanho da subjetividade inconsciente?

Qual o tipo de questão pode ser mais pertinente?

O que perguntar?

Como e quando perguntar?

Questões, dúvidas, incertezas...

Estranho seria se o homem não se indagasse;

Se aceitasse o mundo da forma que lhe é concebido.

Estranho seria se não existisse desavenças, disparidades...

Estranho seria se todos se entendessem

E num perplexo entusiasmo coletivo

Se amassem e se entregassem à plenitude esperada

Palavras ordenadas em um sentido metafórico, pejorativo.

Um estranho pensar em expressar sentimentos que não se pronunciam;

A pureza de uma palavra e sua força,

A beleza de uma letra e seu fonema,

A sonoridade da dúvida.

A liberdade escrita.

A licença poética.

A poesia sem licença.

Com licença,

mas você sabe do que estou falando?

Seria de uma alegria ou lamento?

Seria de uma vida ou pensamento?

Seria assustador?

Seria prolixo?

Seria besteira?

Será que seria de alguma coisa que vai ser?

Será um samba, uma cantiga, um poema?

Uma carta, bilhete, sentimentalidades?

O que será isto que seria algo sobre o que vai ser?

A incrível frivolidade de um moribundo

Os pensamentos oscilam de forma agitada e incrementada e conturbada

Imagens vão e vem e vão em vão no vão do além do infinito

Uma linguagem desordenada

Palavras organizadas da maneira sistêmica

Um dia frio de chuva

Uma noite triste e sozinha

Uma vida de prelúdios e lúdicas decisões na ilusão real do ser

O simulacro

O eminente

O intermitente

Independente, consciente, auto-suficiente

Um álbum de fotografias na memória

Atitudes passadas, sonhos passados,

minhas vidas passadas (a limpo)

“Tudo que morre fica vivo na lembrança;

como é difícil viver com um cemitério na cabeça!”

Matar uma pessoa é como cortar as unhas dos pés.

Começa-se a pensar na melhor posição, forma e conforto;

No início dá uma preguiça, mas quando começa,

Não quer mais parar...

É simples, fácil, rápido...

Basta se acomodar com a posição que torna-se automático

Os reflexos são rápidos e precisos.

Pode-se pensar muitas coisas sobre isso;

Imaginar muitas coisas...

Tudo é contornável na vida...

Mas o tempo destrói qualquer coisa,

Só não consegue atingir os pensamentos mais ocultos

de cada um para si mesmo

Os crimes e castigos de cada pessoa,

As culpas, idéias, contradições e confusões...

Tudo passa, tudo se releva, tudo se esconde...

Mas o pior pesadelo para um homem

É ele ter certeza que é um legítimo e verdadeiro

Filho de uma puta!

Em um dia triste como hoje
era um caminhão, carregado de tristezas, alegrias, emoções....
chovia...
e os botões se espalhavam, a chuva se espalhava,
o vazio se espalhava
saí e voltei molhado
com mais de dúzias de saudades
e espalhei as saudades pela cozinha,
janela, varanda, sala, cama, banheiro
eu fiquei maluco...
eu só reconhecia as minhas cores nelas
minhas coisas nelas
minhas lembranças e tristezas nelas...
décadas e séculos e milênios que vão passar...
eu fiquei maluco?
e as coisas benvindas que eu recebi
e as minhas cores belas...
praias, baias, rios, mares, lágrimas e oceanos não irão secar
se você está,
onde você está,
quando você está,
em minhas coisas,
você é a mais linda...
Eu fiquei maluco!

Uma estranha paisagem,
a eterna glória de um rei
Uma grandeza enorme incomensurável
uma pedra gigante com a levitação das águas
uma família estranha
com a rosa montanha no mar
que brota da beleza da floresta
da eterna glória de um rei
doce ternura no ar
saudades de um passado desconhecido
de um mundo como seu criado mudo,
surdo após sua voz ouvir
de uma era do futuro
com a beleza revelada em prosa, sem verso ou poesia
apenas a eterna glória de um rei
sem trono, sem reino, sem rumo, sem nada...

O que dizer?

...

Palavras podem ser muito poderosas, mas muito pouco compreendidas.

Quanto vale uma palavra?

É por quilo ou volume?

É por representação ou sonoridade?

Idioma, dialeto, gíria, rebuscada, sofisticada, educada, obsoleta, engraçada...

Engraçado, obsoleto é uma palavra obsoleta não?

Gíria surgiu com uma gíria...

Sofisticada: polissílaba e paroxítona. É sofisticada

A rebuscada aparece como um parênteses... Re- busca- da

E a educada é super singela, comportada, com muita sonoridade e uma carga ótima.

Mas e a compreensão, entendimento, utilização, prostituição das palavras...

Em que oração devemos subordinar ou insubordinar?

Quando o nosso sujeito deve-se tornar oculto, simples ou indeterminado?

E os objetos de nossas construções, diretos ou indiretos?

Com atos transitivos ou intransitivos?

Adjuntos, advérbios, adjetivos...

preposições e pronomes

substantivos...

simples, próprio, abstrato,

concreto, real, simulacro

Rio de Janeiro, 2:30 da manhã em algum gueto da zona sul

È impressionante o prazer que as pessoas encontram em se sentir importantes.

A vitrine da vida onde todos fazem exposição de suas belas aparências com seus estilos copiados ou deturpados, seus olhares insinuantes como uma isca, seus poderes de conquista em uma busca fútil para exaltar o próprio ego. Um jogo de sedução e sarcasmo onde o que importa é a dominação da atenção dos outros em você. Uma sociedade banalizada pelas ondas sonoras que ecoam nessas mentes vazias. Batidas repetidas de orações subordinadas como um espetáculo em transe, com subterfúgios de envolvimentos ou meros conhecimentos. Uma frustração. Um prazer estranho, uma sociedade estranha, um comportamento estranho. A vontade de possuir a atenção alheia é o que importa. Que conceito será esse? Em um estudo sociológico e antropológico, diria que vivemos em uma sociedade que cria seus próprios carrascos e senhores dominantes. A escravidão é gerada de forma fantasiosa, onde se encontra uma fuga para dentro. Parece esquisito falando assim, mas quantas pessoas têm a coragem de se mostrar e dizer o que pensam e como são? Quantas pessoas se mostram? Quantas pessoas se permitem experimentar novos sabores, cheiros, prazeres... uma aglomeração sem sentido, em uma luta por um espaço dentro de um metro quadrado, onde singelos olhares se confundem e se entorpecem com o festival de belezas estereotipadas nesta vitrine pequeno-burguesa. Um consciente coletivo mexendo com o imaginário. Sem nomes, sem interesse, sem caráter, sem identidade, apenas um beijo e uma sacudida freneticamente incontrolável com o som ensurdecedor de uma melodia rítmica comercializada. Um empolgante sentimento de libertação gerado pelo aprisionamento de seus prazeres e vontades e coragem. Todas as tribos têm  seus rituais e comportamentos, o que dá a sua identidade; mas o que me intriga, é que nesta tribo – se é que podemos assim citar – o seu ritual e comportamento é o de não ter identidade e de se aprisionar, camuflando-se em uma moda de liberdade aprisionada.

Não sei se isso faz algum sentido, mas foi a experiência que tive no Rio de Janeiro, às 2:30 da manhã em um gueto da Zona Sul.

almodóvar

Kika

de salto alto

infligindo a Lei do desejo

procura um matador e diz:

- Ata-me!

Com os seus maus hábitos e a carne trêmula

Ela conta tudo sobre sua mãe

ele:

- Fale com ela!

E meu labirinto de paixões?

A flor do meu desejo?

Não....

Ele, com toda a sua má educação,

Em um suspiro longo, diz:

Mulheres à beira de um ataque de nervos!

matemática

A má temática do meu raciocínio

Equacionada em frações de unidades de tempo

Com subtrações dos resultados ilógicos

Alcançados por soma de acontecimentos não exatos

Multiplica a chance de uma resposta negativa

E se com duas paralelas e uma transversal

Eu acho os ângulos certos

Usando o seno e co-seno com senso

Qual a probabilidade de acerto dos meus problemas?

quem é ela?

A noite cai atropelando os desejos não revelados

Uma ansiedade sem limite ou afago

Uma volúpia de encontrar com ela...

Foi apenas uma noite, uma noite...

Inesquecível, fantástica, alucinadamente promíscua

A mais desejada da festa

Os olhares famintos caíam sobre ela

E seu traje, apesar de simples, deixava ela se mostrar nua

Insinuante, instigante, misteriosa

Sua aparência limpa não mostrava o seu lado escuro

O tocar com suavidade para não perdê-la a qualquer instante

Uma delicadeza que não conhecia dentro de mim

Uma força de controle que não imaginava em alguém sobre mim

Ela me avisou, não se apaixone

Meus amigos me avisaram, não se envolva

Será apenas esta noite

Hoje, toda noite, eu rondo a cidade a procurar sem encontrar

Só encontro olhares esguios por todos os lados

Mas você não está...

Volto pra casa abatido

Desencantado da vida

E vou saciar a minha libido com a primeira que encontrar

Da misteriosa, nada sei...

Foi só aquela noite,

O primeiro dia do resto de minha vida

O primeiro estalo

A perdição materializada no paraíso imaginário

A musidora

Inspiradora

Controladora

Dominadora

Com um nome forte e desafiador:

Cocaína.

fonema

Quantas vozes podem ecoar em nossa mente

Quantos pensamentos passam em nossa mente

Quantos rostos, desejos, medos e sonhos passam em nossa mente

Nossa mente, nossamente, nós e a mente, a mente, mente.....

Quantas perguntas podemos fazer

Quantas respostas podemos obter

Quantas vezes eu vou comensurar ou censurar minhas vontades

O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço

Vivo em um exercício mútuo e verdadeiro de incompreensão satisfatória

Demasiadamente promíscua e impetuosa

Um querer sem limites, um horizonte sem parâmetros, uma liberdade sem fim

Um trágico e cômico subterfúgio concretizado

em um simulacro desconstruído e fragmentado

com suas informações obsoletas e um museu cheio de novidades

Uma arte exposta na galeria da vida, na vitrine real,

Aos olhares dos críticos e sábios uma nomenclatura “neo”

Você está “in”

Eu pensaria no fonema “il”

Quantas palavras você conhece com o fonema “il”

Um plano de saúde, calmante, antidepressivo, ansiolítico

Uma banda, um formato de mídia, palha de aço, cantor

Uma jovem traída pela sociedade

Onde a necessidade leva à sobrevivência

A miséria leva à indecência

As duas à loucura, imenso devaneio...

Vivemos em uma ausência de amor,

Com a presença do dinheiro.

Olhamos e não vemos ou fingimos que não vemos

Mais uma, mais outra, mas outra?

Puta que pariu.

Expresso do Oriente

Uma busca incessante de saciar a libidinagem

Vivendo em uma companhia solitária

De um futuro do passado não muito presente

Redescobrindo meu ancestral alquimista

transmutando-o como maquinista

Desta minha loucoemotiva harmônica disritmia

Descarrilada, desgovernada, carregada.

Sobrecarregada de tudo e todos

Com ilustres passageiros e suas refinadas bagagens

Para as mais variadas viagens

A divisão de classes nos vagões

Com seus nomes e nomenclaturas inusitadas

De primeira à econômica

Da boa à meia-bomba.

Em uma analogia farmacológica

Os passageiros mais sofisticados

Conhecidos nas festas mais quentes

Misturados à cicuta ou champangne

Mas sempre rodeados de comentários inteligentes.

Um trem saturado de informação e valores agregados

Desagregando informações imprecisas, inexatas...

As mais glamourosas companhias

E famílias completas com suas gerações em carma.

Os ansiolíticos e benzadiasepínicos na primeira classe

Seguidos da família Ina como executiva

E na econômica,

Um grupo enorme de atuantes fitoterápicos

Com seu estímulo desacelarador e marginal.

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Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, BOTAFOGO, Homem, de 26 a 35 anos